POESIA: Poema : "Aos críticos" de Rogaciano leite

Poema : "Aos críticos" de Rogaciano leite
Senhores críticos, basta/Deixai-me passar sem pejo/Que um trovador sertanejo/Vem seu pinho dedilhar/Eu sou da terra onde as almas/São todas de cantadores/Sou do Pajeú das Flores/Tenho razão de cantar/
Não sou um Manuel Bandeira/Drumond, nem Jorge de Lima/Não espereis obra prima/Deste matuto plebeu/Eles cantam suas praias/Palácios de porcelana/Eu canto a roça, a choupana/Canto o sertão, que ele é meu.
Vocês que estão no Palácio/Venham ouvir meu pobre pinho/Não tem o cheiro do vinho/Das uvas frescas do Lácio/Mas tem a cor de Inácio/Da serra da catingueira/Um cantador de primeira/Que nunca foi numa escola.
Pois meu verso é feito a foice/Do cassaco corta a cana/Sendo de cima pra baixo/Tanto corta como espana/Sendo de baixo pra cima/Voa do cabo e se dana.
O meu verso vem da lenha/Da lasca do marmeleiro/Que vem do centro da mata/Trazida pelo leenheiro/E quando chega na praça/É trocada por dinheiro.
O meu verso tem o cheiro/Da carne assada na brasa/Quando a carne é muito gorda/ Esquentando, a graxa vaza/É a graxa apagando o fogo/E o cheiro invadindo a casa.
Aqui é a minha oficina/Onde conserto e remendo/Quando o ferro é grande eu corto/ Quando é pequeno, eu emendo/Quando falta ferro, eu compro/Quando sobra ferro eu vendo.
Meu verso é feito a cigarra/Num velho tronco a sonhar/Que canta uma tarde inteira/ E só para quando estourar/Que eu troco tudo na vida/Pelo prazer de cantar.
Quem foi que disse/Professor de que matéria/Que o sertão só tem miséria/Que só é fome e penar/Que é a paisagem/Da caveira duma vaca/Enfiada numa estaca/ Fazendo a fome chorar.
Não pode nunca imaginar/O som que brota/Da cantiga de uma grota/Quando chuva cai por lá/O cheiro verde/Da folha do marmeleiro/E o amanhecer catingueiro/No bico no sabiá.
Tem mulungu do vermelho/Mas vivo e puro/E tem o verde mais seguro/ Que tinge os pés de juá/A barriguda mostrando/O branco singelo/E a força do amarelo/Na casca do umbu-cajá.
Criou-se o estigma/Do matuto pé de serra/Que tudo que fala erra/Porque não pôde estudar/Só fala versos matutos, obsoletos/Feitos por analfabetos/Que mal sabem se expressar.
Falam no sul com deboche/Que isso é cultura/De só comer rapadura/Como se fosse manjar/Saibam que aqui/tem abelha de capoeira/E o mel da flor catingueira/É mais doce que o mel de lá.
Temos poesia que exalta/O que é sentimento/E a força do pensamento/De quem sabe improvisar/Tem verso livre/Tem verso parnasiano/ E mesmo longe do oceano/Tem galope à beira-mar.
Zefa Tereza me ensinou/Que prum caboclo/Entrar na roda de côco/ Tem que saber rebolar/Soltar um verso naroda/Que se balança/ E no movimento da dança/Fazer o côco rodar!
Esse poema "Aos Críticos", escrito quando o poeta estava no Rio de Janeiro e publicado no livro "Carne e Alma". Há uma controvérsia em relação a sua terra natal. Particularmente não compartilho desta discussão. Se ele é pernambucano de Itapetim ou de São José do Egito, tanto faz. Mas a verdade é que ele nasceu em junho de 1920 no Sítio Cacimba Nova, nas Umburanas, hoje pertencente a Itapetim, mas quando ele nasceu pertencia a São José do Egito, então pela obviedade em seu registro ele é Egipciense. Morreu no dia 7 de outubro de 1969 no Rio, seu corpo foi levado ao Ceará, onde foi enterrado em Fortaleza cidade em que viveu.
Texto: O Nordeste.com
Senhores críticos, basta/Deixai-me passar sem pejo/Que um trovador sertanejo/Vem seu pinho dedilhar/Eu sou da terra onde as almas/São todas de cantadores/Sou do Pajeú das Flores/Tenho razão de cantar/
Não sou um Manuel Bandeira/Drumond, nem Jorge de Lima/Não espereis obra prima/Deste matuto plebeu/Eles cantam suas praias/Palácios de porcelana/Eu canto a roça, a choupana/Canto o sertão, que ele é meu.
Vocês que estão no Palácio/Venham ouvir meu pobre pinho/Não tem o cheiro do vinho/Das uvas frescas do Lácio/Mas tem a cor de Inácio/Da serra da catingueira/Um cantador de primeira/Que nunca foi numa escola.
Pois meu verso é feito a foice/Do cassaco corta a cana/Sendo de cima pra baixo/Tanto corta como espana/Sendo de baixo pra cima/Voa do cabo e se dana.
O meu verso vem da lenha/Da lasca do marmeleiro/Que vem do centro da mata/Trazida pelo leenheiro/E quando chega na praça/É trocada por dinheiro.
O meu verso tem o cheiro/Da carne assada na brasa/Quando a carne é muito gorda/ Esquentando, a graxa vaza/É a graxa apagando o fogo/E o cheiro invadindo a casa.
Aqui é a minha oficina/Onde conserto e remendo/Quando o ferro é grande eu corto/ Quando é pequeno, eu emendo/Quando falta ferro, eu compro/Quando sobra ferro eu vendo.
Meu verso é feito a cigarra/Num velho tronco a sonhar/Que canta uma tarde inteira/ E só para quando estourar/Que eu troco tudo na vida/Pelo prazer de cantar.
Quem foi que disse/Professor de que matéria/Que o sertão só tem miséria/Que só é fome e penar/Que é a paisagem/Da caveira duma vaca/Enfiada numa estaca/ Fazendo a fome chorar.
Não pode nunca imaginar/O som que brota/Da cantiga de uma grota/Quando chuva cai por lá/O cheiro verde/Da folha do marmeleiro/E o amanhecer catingueiro/No bico no sabiá.
Tem mulungu do vermelho/Mas vivo e puro/E tem o verde mais seguro/ Que tinge os pés de juá/A barriguda mostrando/O branco singelo/E a força do amarelo/Na casca do umbu-cajá.
Criou-se o estigma/Do matuto pé de serra/Que tudo que fala erra/Porque não pôde estudar/Só fala versos matutos, obsoletos/Feitos por analfabetos/Que mal sabem se expressar.
Falam no sul com deboche/Que isso é cultura/De só comer rapadura/Como se fosse manjar/Saibam que aqui/tem abelha de capoeira/E o mel da flor catingueira/É mais doce que o mel de lá.
Temos poesia que exalta/O que é sentimento/E a força do pensamento/De quem sabe improvisar/Tem verso livre/Tem verso parnasiano/ E mesmo longe do oceano/Tem galope à beira-mar.
Zefa Tereza me ensinou/Que prum caboclo/Entrar na roda de côco/ Tem que saber rebolar/Soltar um verso naroda/Que se balança/ E no movimento da dança/Fazer o côco rodar!
Texto: O Nordeste.com
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